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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Estudo resgata memória da Guerrilha do Araguaia

“A gente não se sente só traumatizado, mas se sente vítima.Porque a gente nem sabia o que estava acontecendo. Eles [os militares do alto escalão] diziam que eram guerrilheiros financiados por Cuba, pela China, treinados por outros países para virem tomar o Brasil, era essa a informação que nós tínhamos dos comandantes generais. Então, a gente ia fazer aquilo com orgulho, pensando que tava defendendo o Brasil de uma invasão estrangeira. A gente ia pro tudo ou nada, eles diziam: se eles tomarem o País, a tua família vai ser sacrificada. Aquilo era uma maneira deles levantarem o brio do soldado, a moral do soldado.”

O depoimento acima pertence a Dorimar, soldado que lutou na Guerrilha do Araguaia, movimento desencadeado entre as décadas de 60 e 70, que teve  como propósito fomentar uma revolução socialista no Brasil, às margens do rio Araguaia, nas proximidades das cidades de São Geraldo e Marabá, no Pará, e de Xambioá, no norte de Goiás, região onde, atualmente, é o norte do Estado de Tocantins, também conhecida como Bico do Papagaio. De um lado, os guerrilheiros, que lutavam contra a Ditadura Militar no País, de outro, o exército, defendendo a Pátria. Ao redor de tudo isso, o povo da região, que, sem entender direito o que se passava,  foi vigiado, coagido e, muitas vezes, torturado em diversas situações.

Arquivo - O depoimento de Dorimar, juntamente com o de outros soldados, bem como o de guerrilheiros, de moradores da região do Araguaia e de familiares dos ex-combatentes do movimento compõem o acervo analisado pela pesquisa “O arquivo da memória social das lutas camponesas no Pará”, produzida por Adriana Coimbra, graduada em História pela Universidade Federal do Pará e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). O relato soma mais de 80 horas de entrevistas coletadas na região de Xambioá, em um período de dois anos, pelo Grupo de Trabalho do Tocantins (GTT), formado por pesquisadores do Emílio Goeldi dedicados a estudar a Guerrilha do Araguaia e os eventos decorrentes desse importante fato histórico.

A pesquisa de Adriana integra o Projeto “Arquivo da Memória Social da Guerrilha e da Guerra que Veio Depois”, coordenado pelo professor da área de Antropologia da UFPA, Rodrigo Peixoto, pesquisador do Museu Goeldi e integrante do Grupo de Trabalho do Tocantins. “O Projeto objetiva reunir vídeos com entrevistas de pessoas que viveram a experiência da Guerrilha e da repressão que se seguiu, com perseguições, ameaças, assassinatos de lideranças sindicais e de religiosos ligados à Teologia da Libertação”, explica Rodrigo. De acordo com o professor, a importância da iniciativa reside no fato de que “a Guerrilha é um episódio seminal na história da região, no entanto não está incluída nos currículos escolares das escolas públicas, de modo que sua memória, embora viva, continua reprimida socialmente.”

Impossível esquecer - Dessa forma, a partir da análise dos depoimentos coletados, que resgatam a memória do movimento, o objetivo da investigação de Adriana Coimbra é identificar qual foi a importância histórica, política e social da Guerrilha, como ela mexeu com o cotidiano das cidades envolvidas e quais as representações simbólicas criadas pelos sobreviventes e pelos herdeiros das consequências dessa revolta que deixou muitos mortos, torturados e desaparecidos. “Ainda hoje a Guerrilha do Araguaia é assunto difícil de ser lembrado e falado publicamente pelos agentes sociais que, de alguma maneira, participaram da Guerrilha ou que ouviram histórias sobre ela, repassadas oralmente ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, é impossível esquecê-la”, afirma Adriana.

Segundo a pesquisadora, as entrevistas por ela analisadas revelam um lado mais humano dos guerrilheiros, registrados na história apenas como pessoas duras de caráter, capazes de matar ou morrer pelos seus ideais. Na ocasião da pesquisa, ela analisou, por exemplo, o depoimento de dona Neusa, moradora de Xambioá, a qual relata como se envolveu com Amaro Lins, um guerrilheiro atuante no ano de 1969. Amaro se afastou do Partido Comunista do Brasil (PC do B) para ficar com dona Neusa. Tiveram quatro filhos, mas, em 1972, Amaro foi preso pelo Exército para prestar esclarecimentos sobre seu envolvimento com a Guerrilha, sendo afastado de sua família por um tempo.

Memórias reveladas - Por meio de uma parceria firmada entre o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Arquivo Nacional, a pesquisa de Adriana Coimbra foi integrada ao Projeto “Memórias reveladas”, do governo federal – Ministério da Justiça, o qual prevê que seja criada uma rede de arquivos sediados em vários lugares do Brasil, tendo como denominador comum o intuito de revelar fatos ocorridos durante o período de Ditadura Militar. O material coletado pelo GTT, ou seja, todas as mais de 80 horas de entrevistas em áudio e vídeo com ex-combatentes e moradores da região do Araguaia, será disponibilizado no site http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br. “A ideia é registrar a memória recente do País, além de analisar e disponibilizar as fontes como material de pesquisa para a Academia e para a sociedade em geral”, explica a estudante. Os depoimentos analisados na pesquisa poderão ser acessados no site a partir do mês de março. (Ascom UFPA)

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