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segunda-feira, 28 de março de 2011

Taques terá reencontro com Barbalho, 9 anos depois

Quando dona Eda soube que Pedro Taques deixaria uma carreira brilhante e o cargo vitalício no Ministério Público Federal (MPF) para tentar uma cadeira para o Senado, com apenas 3% das intenções de votos, ela passou uma semana sem conversar com o filho. Ficou chateada. Afinal, Pedro estudou tanto para ser procurador e largaria tudo para ir para o Senado. Mas raiva de mãe dura pouco. De crítica, dona Eda passou a militante do mandato do senador Pedro Taques (PDT-MT).

Agora, ela não perde um discurso do filho na TV Senado e, graças a Taques, a audiência das transmissões terá dias de glória. A nulidade da Lei da Ficha Limpa trouxe Jader Barbalho (PMDB-PA) de volta à cena pública. E, entre os telespectadores de boa memória e funcionários da Casa, é grande a expectativa para ver Taques e Barbalho reunidos na mesma arena: o plenário.

Em 2002, ainda na pele de procurador, ele assinou o pedido de prisão que levou o paraense à cadeia, com direito a operação de captura e algemas no pulso. Em 2011, os meandros da democracia colocaram os dois frente a frente como colegas de mandato. 

Após passar oito anos sob escolta policial graças ao séquito de inimigos que ganhou durante a atuação na "liga dos justiceiros" do MPF, o senador do PDT acostumou-se ao improvável e responde que não se importa em dividir espaço com colegas que não são exemplos de conduta pública. 

"Não preciso gostar da pessoa para trabalhar com ela. Estou sendo respeitado e respeito as pessoas aqui dentro", resume. Em 15 anos no Ministério Público, ele ajudou a desbaratar organizações criminosas e prendeu bandidos poderosos, mas afirma que deixou a carreira de procurador com um misto de orgulho e decepção. 

Apesar dos feitos - como a prisão do ex-policial civil João Arcanjo Ribeiro, o Comendador, chefe do crime organizado do Mato Grosso - promete ir atrás do "gol de ouro", mas dessa vez por meio do Legislativo. Taques conta que o trabalho de procurador foi prejudicado por um sistema judicial e legislativo repleto de problemas. E com a fé dos parlamentares de primeiro mandato, aposta na política como "instrumento de transformação".

O Taques senador ainda se esforça para ganhar veia política, mas disfarça e tenta vestir o personagem. Nas frases diretas e na aversão ao hábito eminentemente político de sorrir sem querer sorrir, ele se contradiz. "Eu sou político, mas sou contra vagabundos na política", solta, com naturalidade. 

A vida partidária começou em 29 de março de 2010, quando escolheu o PDT, inspirado na plataforma da educação do senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Agora, é o favorito para presidir o partido no Mato Grosso, a partir deste ano. Durante a campanha, amargou receber um telefonema gravado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo votos para seu concorrente. Ironia do sistema de telemarketing.

Bilhete

Na contramão do corporativismo da Casa, defende o fim das emendas parlamentares individuais para recuperar a independência do Congresso perante o Executivo. Mas se a defesa do fortalecimento do Legislativo soa vazia dentro do próprio parlamento, na sala de aula valeu até o casamento de Taques. O senador, que também é professor em cursos de pós-graduação em Direito, encantou uma aluna ao explicar "como o Legislativo se transforma em carimbador". 

A iniciativa do procurador famoso por mandar bandidos para a cadeia sumiu na hora da paquera e coube à ex-aluna mandar um bilhetinho elogiando o professor. "Sou muito tímido, chego a ser quase sofrido", confessa Taques.

A conquista deu certo e professor e aluna estão juntos há cinco anos. Do primeiro casamento, o senador tem uma filha de 13 anos, por quem se derrete. Conta que a menina herdou seus hábitos e chega a ler 20 livros por ano. Diferentemente do pai, quer se dedicar à medicina, como neurologista.

Recentemente, Taques fez uma incursão aos arquivos de foto de família e descobriu que não tem nenhum retrato da infância. Sempre fugiu das fotos, mas sente falta das memórias. "Parece que eu não existia. Às vezes, penso que sou um marciano que caiu aqui. Eu sou infiltrado."

Caso Sudam: a dez anos
Há 10 anos, um escândalo envolvendo desvio de pelo menos R$ 4 bilhões da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) abalou a política brasileira, ao ponto de chegar ao então presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB). O caso se tornou um dos símbolos da impunidade no Brasil, já que, até agora, as punições são raras e o dinheiro nunca voltou aos cofres públicos. 

Barbalho renunciou ao mandato, foi preso durante as investigações e, no ano passado, se candidatou ao Senado novamente. Eleito, ele não pôde assumir o cargo por causa da Lei da Ficha Limpa, cuja decisão foi revogada na quarta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No plenário da Casa, Jader terá que conviver com o colega Pedro Taques (PDT-MT), que há 10 anos, como procurador da República, foi quem pediu sua detenção no caso Sudam.

Nos últimos 10 anos, o Ministério Público Federal abriu quase 500 processos relacionados ao Caso Sudam, mas o resultado do trabalho pouco aparece. "Do ponto de vista prático, não há recuperação de nada do que foi desviado", comenta o procurador da República no Pará, Ubiratan Cazzeta, um dos quatro integrantes do Ministério Público Federal que trabalharam no caso durante pelo menos cinco anos. 

"Há algumas condenações, mas tudo em primeira instância e nenhuma transitada em julgado (definitiva)", acrescenta Cazzeta. O outro colega de investigação, Mário Lúcio Avelar - que na época estava lotado no Tocantins -, não gosta de falar sobre o caso sem solução. "Não houve punição", diz ele, encerrando o assunto.

Sindicância

As primeiras investigações sobre os desvios começaram em 1997, quando o Ministério Público Federal em Mato Grosso detectou uma fraude de R$ 100 milhões em um empreendimento. A direção da Sudam foi alertada, mandou abrir uma sindicância para apurar os fatos, mas continuou a liberar recursos para a empresa. 

No início de abril de 2001, o escândalo estourou e mostrou que as fraudes ocorriam em outros estados da Amazônia e no Centro-Oeste, e com o envolvimento de políticos de renome. "O sistema de incentivos fiscais como o da Sudam é importante, mas a fiscalização na época era uma bandalheira", conta o hoje senador Pedro Taques, o primeiro procurador a entrar no caso.

A partir de Paraíso, uma pequena cidade do Tocantins, chegou-se ao esquema no Pará, onde vários dos empresários que receberam financiamento da Sudam tinham ligação com o PMDB ou com o então presidente do Senado, Jader Barbalho. A partir daí, a Polícia Federal se aprofundou nas investigações, desgastando ainda mais Jader, forçando-o a renunciar à Presidência da Casa em outubro de 2001.

Taques também acredita que o escândalo da Sudam vai acabar sem punições e sem ressarcimentos aos cofres públicos. E hoje, segundo ele, os processos estão parados por causa da lentidão judicial. "No Brasil, por exemplo, processos levam até 12 anos para ter resultados, enquanto no Chile, apenas oito meses", diz o senador.
(Correio Braziliense)

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