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sábado, 9 de julho de 2011

Jogo dividido: plebiscito no Pará racha até MST

Em Parauapebas, no sul do Pará, MST defende criação de novo estado - junto com ruralistasO plebiscito que decidirá se dois novos estados – Carajás e Tapajós – serão criados no Pará coloca em lados opostos integrantes de movimentos sociais, lideranças políticas e o empresariado local. Mais do que as cores ideológicas, o local de moradia move as opiniões divergentes. A discussão mais acalorada é sobre a criação de Carajás - região do sul paraense rica em minérios e onde fica uma das principais jazidas da Vale. Em Tapajós, área mais pobre no oeste, o debate, apesar de mais antigo, é menos intenso. O plebiscito está marcado para dezembro, com regras já divulgadas pela Justiça Eleitoral. A palavra final será do Congresso.
Em Carajás, inimigos mortais como ruralistas e sem terra estão unidos em torno da criação do novo estado. Em Belém, as posições se invertem. Lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que, no sul, defendem o desmembramento, concordam tacitamente com o governador Simão Jatene (PSDB): todos são contra a divisão. Procurado, o MST não quis comentar o assunto. 
Pendências - Neste balaio, emerge até a figura do financista do grupo Opportunity, Daniel Dantas. Dono da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, Dantas tem 27 fazendas no sul do Pará. Com terras e gado sequestrados pela Justiça e propriedades e pastos depredados pelo MST, desde 2007 ele também prega pela criação de Carajás. Imersa em dívidas de sessenta milhões de reais, a Santa Bárbara Xinguara deveria ser a maior produtora de gado do Brasil, com um rebanho de 500 mil cabeças. A criação do estado seria uma forma velada de Dantas começar a renegociar parte de suas pendências com fazendeiros de quem comprou terras na região.

Parceiros dos sem terra em invasões, os integrantes da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) de Marabá, no sul, estão por Carajás e não abrem. "Sei que tem gente lá em Belém, no sindicato e no MST, que não quer. Mas nós queremos ter mais atenção, mais escola", diz Francisco Ferreira de Carvalho. Os pequenos agricultores acabaram convencidos de que a criação do estado seria boa durante uma manifestação na superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Marabá, no final de junho.
Atentos, o deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA) e Luciano Guedes, prefeito de Pau D’Arco e presidente da Associação dos Municípios do Araguaia, Tocantins e Carajás (Amat), tentaram organizar um seminário. A iniciativa não vingou, mas parte dos sem terra comprou a ideia. Queiroz e Guedes são donos de rebanhos e grandes extensões de terra no sul paraense.

No Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Redenção, também na região sul do Pará, a presidente Valmisória Moraes Costa está fechada com os patrões ruralistas. "Vamos ter mais tudo: escola transporte, saúde e investimento. Vamos ter mais força para brigar”, diz. Se Carajás surgir, porém, os apelos do deputado Queiroz podem se concretizar. Pecuarista vindo de Minas Gerais, ele sempre reclamou que o MST deveria receber uma atenção mais ríspida da polícia. Se sair vitorioso, Queiroz vai querer trazer a lei para aquele pedaço do Brasil – além de ser o nome forte na primeira eleição para governador. Pela causa, ele reduziu o tom de suas críticas.
 

Campanha nas ruas - A campanha em prol de Carajás vai ser coordenada pelo ex-publicitário de Lula, Duda Mendonça, dono de fazendas na região. Luciano Guedes, da Amat, não tem ideia do custo da campanha, mas garante que tudo vai funcionar. "Duda conhece isso aqui como ninguém. Ele vai fazer trabalho voluntário", diz.
Ainda que não autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha já está na rua. Carros circulam com o adesivo "Estado de Carajás" nos vidros. Duda Mendonça não colou o adesivo no bimotor que usa para visitar suas fazendas, mas articula a participação do deputado ruralista Ronaldo Caiado (DEM_GO). O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), criador de Tocantins, em 1989, também está simpático à causa. Levas de migrantes pobres maranhenses formam a base da pirâmide social em Carajás e têm no clã Sarney uma referência política.
Em Brasília, o deputado Cláudio Puty (PT-PA) vê o desenrolar da campanha com atenção. Alinhado com a presidente Dilma, que não quer a separação – e aliado indireto do governador Jatene –, ele diz que os grupos envolvidos só visualizam um lugar ao sol. "Não quer dizer que algo vá reverter às populações", diz. Puty vê o plebiscito como um diagnóstico errado para tratar de um mal já identificado.
Mais do que tamanho do aparelho estatal no Pará, a desigualdade ali foi gerada pelas deficiências em todos os níveis da rede pública. "Para que dividir, se daqui a um tempo esse pessoal poderá ter tudo para si", afirma Puty, criticando Queiroz, Guedes e demais pecuaristas, a maioria vinda do Sul e do Sudeste.
Sobre o exemplo de sucesso de Tocantins e Mato Grosso do Sul, o deputado cita os desmembramentos menos felizes de Amapá e Roraima. "Deveriam olhar para as prefeituras antes de discutir qualquer coisa. Dos 144 municípios, só dez estavam com as contas em dia no último mês", alerta. (Veja)

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