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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cláudio Puty usou força política para liberar projetos

A Polícia Federal (PF) não tem nenhuma dúvida: Cláudio Puty, que era no governo de Ana Júlia Carepa chefe da Casa Civil e se desincompatibilizou do cargo para concorrer a deputado federal pelo PT, conseguindo se eleger, utilizou sua força política para patrocinar junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) processos de interesses de madeireiras que bancaram sua campanha eleitoral. O encarregado de facilitar as coisas na Sema era o secretário adjunto, Cláudio Cunha. 

“Já em maio de 2010, notou-se que a aprovação de planos de manejo era uma moeda de troca para apoio político nas eleições que se aproximavam”, diz o relatório da PF em um dos onze volumes que contém degravações de conversas telefônicas. Em uma das conversas, Sebastião Ferreira Neto, o “Ferreirinha”, presidente do Águia de Marabá e então candidato a deputado estadual, comenta com o servidor da Sema, Dionísio Oliveira, que Puty teria conseguido aprovar um plano de manejo deles, razão pela qual ele apoiaria o petista ao cargo de deputado federal.

Oliveira vai a Marabá e a Dom Eliseu. Seu objetivo é vender as toras de madeira. Está disposto a exigir do governo a aprovação de seus projetos, diz a PF. Encontrou pessoas do sul do Pará que deram apoio a ele porque tiveram projeto aprovado através de Puty. Foram planos de manejo de Conceição do Araguaia, Santana do Araguaia e Xinguara.

>> Projeto liberado em troca de apoio político

Após cumprimentos, Dionísio Oliveira e “Ferreirinha” travam o seguinte diálogo:

Oliveira- Rapaz, estou te ligando para falar que estou querendo descer para aí, amanhã. E tô querendo ir lá pra Dom Eliseu. E aí, tu acha que a gente consegue um carro para ir lá e voltar à noite?

Ferreirinha- À noite?

Oliveira- É chegar de tarde, sair de lá de tarde e chegar à noite. 

Ferreirinha- Mas tu vai de manhã cedo lá?

Oliveira- É, do aeroporto direto pra lá, porque eles tiraram a madeira e nós vamos ver se vendo a madeira amanhã, dá 110 mil, das toras mesmo que foram tiradas, né? Aí eu já falei pra eles não venderem enquanto eu não estivesse junto porque nós estamos precisando daquele negócio, daquele dinheiro teu, né? Aí eles combinaram com o cara para ir negociar amanhã e me ligaram agora há pouco dizendo que o homem pode ir negociar amanhã. Pediram para eu ir.

Ferreirinha- Tá bom. Aí, quando você chegar aqui, tu me liga umas sete, sete e quinze. Eu vou tomar uma cerveja hoje.

Oliveira- Tu vai tomar uma cerveja?

Ferreirinha- É, rapaz, estou estressado demais com esses caras. Eu falei hoje para o Raimec: tu é o único cara, meu amigo, que me liga, que me dá satisfação. Pelo menos você troca uma opinião, troca uma ideia. Estes outros caras parece que sentiram que eu vou ser deputado e agora tão puxando o tapete. Ninguém me atende, ninguém fala comigo, ninguém me dá atenção. Ninguém me dá nem os parabéns pra dizer “pô, Ferreirinha”. Parece que os caras pensam: “o Ferreirinha é um cara bom, mas ele não tem de ganhar, quem tem de ganhar é o Moura e a Sueli (candidatos Edílson Moura e Sueli Oliveira).

Oliveira- Você tem de ajudar.

Ferreirinha- O Ferreirinha tem de ajudar. Então, eu não entendo isso, pô.

Oliveira- Eu senti que eles viram que tu pode ser uma vaga e eles viram que não pode ter controle sobre você, como tem da Sueli e do Edílson. Porque a Sueli e o Edílson Moura é (sic) cheio de rabo preso com eles. O que foi que eles te deram? Nada, né?

Ferreirinha- Porra nenhuma.

Oliveira - Como eles não te deram nada, vão cobrar o quê de ti? É diferente da Sueli, que deu uma secretaria, do Edílson Moura, que deu uma secretaria. E aí eles tão vendo que você vai ser eleito mais por mérito seu, das pessoas que você construiu. Ó, diante de todas as notícias vamos falar logo. Ele te ligou, o Raimec, porque o PMDB, você sabe, rompeu mesmo com o governo.

Ferreirinha- Não. Mas eu liguei pra ele de manhã. E ele sempre foi assim. Quando ele não pode atender, ele passa uma mensagem: “já te ligo”. Quando foi agora à tarde ele me ligou e disse: “não, Ferreirinha, desculpe, eu estava em reunião. 

Oliveira- Tu viu nos jornais aí, o PMDB lançando? Pois é, Ferreirinha, eu acho que agora nós temos mais do que exigir do governo aqueles negócios nossos dos projetos. Dizer: “olha, meu amigo, ou desenrola estas coisas nossas ou nós vamos ficar aí a ver navios”.

Ferreirinha- Sobre o assunto a gente conversa.

Oliveira- Deixe eu te falar um assunto rapidinho. Hoje eu encontrei um pessoal do sul do Pará, entendeu? Eles têm uns oito projetos nesse setor. Aí eu sentei com eles e falei da tua campanha. Aí eles disseram: “olha, teve um projeto nosso que foi liberado através do Puty, então, pra federal, nós já estamos fechados com o Puty”. Eu falei: mas eu quero saber pra estadual. Dá pra nós firmar um acordo? Aí fechamos um acordo de uns projetos em relação a tua candidatura. Eles estão voltando, vão passar aí amanhã, meio-dia, onze e meia. Eu queria ver se antes, do teu almoço, tu ao menos falava com eles rapidinho. Eu falei com eles que iria falar com o Ferreirinha pra ver se ele pode ao menos conhecer vocês e vocês firmarem o compromisso com ele, dá a palavra pra ele lá em Marabá. Porque eu tô saindo cedo lá pra Dom Eliseu.

>> Negociações feitas via mensagens

Outro investigado, o secretário adjunto da Sema, Cláudio Cunha, segundo a PF, também privilegiava os processos dos quais Puty tinha interesse. Em conversa com o gerente do órgão, Fernando Diniz, Cunha diz o seguinte: “Querido, uma informação. Amanhã cedo, uma reunião aqui, tá? Que aqueles cinco documentos do Puty que eles iam parar o pessoal foi lá conversar com os representantes da associação e querem ‘tudo normal’”. Fernando responde que está tudo bom e que amanhã cedo fala com Cunha. 

Apesar de não conversar muito sobre as ingerências na Sema, Puty se utiliza de mensagens de texto para trocar informações a respeito dos processos do órgão. Cunha manda a seguinte mensagem para o celular de Puty: “Amigo, o grande que lhe falei já tá. Vamos encaminhar”.

O secretário de Meio Ambiente, Aníbal Picanço, e o adjunto, Cláudio Cunha, trocam, no dia 1º de julho do ano passado, às 13h49, mensagens por celular sobre projetos de manejo de interesse de Cláudio Puty. 

Cunha para Picanço - “O Puty me ligou pra receber o Aquino pra ver uns processo aqui. Tem um já pra assinar de 22.146 metros cúbicos. Libero?”

Picanço para Cunha - “Do Aquino? Se for, diga que vai verificar e aí liberamos na segunda-feira”.

Cunha para Picanço - “Tem outro também, imenso. Aquele que guardei pra revisão de 63.799 metros cúbicos. Ambos estão aqui no gabinete”.

No dia 7 de julho, às 17h47, outra mensagem entre os dois.

Cunha para Picanço - “Lembra daquele processo (63.799 metros cúbicos) que o Aquino veio aqui indicado pelo Puty? Que tal? Ele voltou! Já falaste com o Puty? Libero?

Picanço para Cunha - “Vamos aguardar até amanhã. Me faz lembrar”. 

DEFESA DE PUTY

Puty disse ontem à noite ao DIÁRIO que não conhece nenhum empresário do sul do Pará. Ele acusou Oliveira de falar genericamente e de não mencionar nomes. “Em Dom Eliseu não conheço nenhum empresário. A única pessoa que conheço lá é do PT”. Para o deputado, Dionísio Oliveira cita seu nome sem ter nenhuma comprovação do que diz. “Nunca aprovei plano de manejo pra ninguém. Ele (Oliveira) pode estar mentindo para o ‘Ferreirinha’ usando meu nome”.

A respeito das mensagens trocadas por celular entre Cláudio Cunha e Aníbal Picanço, o deputado declarou não lembrar disso. Puty explicou que pessoas pediam para ele indicá-las para audiências com o secretário, mas que não era responsável pelo que elas falavam durante essas audiências. Por fim, o deputado definiu Oliveira como “pilantra”. (Diário do Pará)

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